
"Li recentemente que em alguma remota região da África - Mas talvez fosse do Oriente - quando uma criança nasce, os adultos e os sábios da aldeia se reúnem e someçam a entoar melopéias e canções numa espécie de transe. desfiando sons conhecidos até chegar a novos sons, até chegar aquela que será a música pessoal e exclusiva do recém-nascido. Burocraticamente, diríamos que para o novo cidadão aquela música passa a ser uma espécie de carteira musical de identidade. Mas é muito mais, é uma impressão digital auditiva, é um reconhecimento interior, é a identidade em si. A partir dali, a comunidade canta aquela música à criança em todas as ocasiões importantes da sua vida - os aniversários, os ritos de iniciação, as grandes perdas. E quando, passando progressivamente a adolescente, jovem e adulta, a pessoa se sentir desnorteada, sofrer os males da vida, ou ferir com seu comportamento as leis da comunidade, cantarão para ela sua música, a fim de que, ouvindo-a, se lembre de quem é, se respeite, e recupere seu eixo. Uma música exclusiva cujo o único registro está na memória dos que criaram. "
Créditos: Livro - Os últimos lírios no estojo de seda, escritora: Marina Colasanti
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